Querido Caio,

 

não se assuste com o querido, e nem com essa intimidade toda, pois falo com você a partir dessa materialidade palpável com a qual convivo, seus livros e suas narrativas, que fazem parte da minha vida entre livros. Você mais do que ninguém sabe o que é isso. No fundo, Caio, somos feitos dos livros que lemos. Eu, como texto de memória, me construo o tempo todo ou me desconstruo a todo instante e não nego que seus textos me fazem ser quem sou também. Ser de memória, no qual a ausência das pessoas e dos objetos que me foram caros, transforma-se em presença em meu corpo, tornados palavra, do mesmo modo como você, provavelmente construiu seus textos. Assim, neste momento presentifico meu pai, minha perda, como sua escrita o faz presente todas as vezes que leio você. Afinal você escreveu: “A gente tem tantas memórias. Eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. O acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. De repente o presente, qualquer coisa presente. [...] As ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. Mas continuam inteiros dentro de você” (ABREU, 1991 , p. 188).

Tenho que te contar que eu consegui, juntamente com muita gente boa, organizar um colóquio no qual você é homenageado. É Caio, você tomado pela sua obra. Veja como você se fez livro, texto! Quem diria que você, um guri de Santiago do Boqueirão ou seria de Passo da Guanxuma? viraria livro e moraria dentro dos outros! No fundo você sempre quis isso. Ser amado pelos textos que escrevia.

Então, aproveito para te contar que nesse colóquio eu conheci o seu amigo Gil Veloso, cara mais legal, que me deixou emocionado como o guardião de seus discos, livros, diários, sua materialização em memória afetiva. O Gil é muito seu fã, seu fiel escudeiro, e também escreve, fazendo malabarismos com as palavras.

 Também conheci a Nara Keyserman, outra criatura bondosa e doce, que foi sua professora e dirigiu você no teatro. Ela me espantou com tanto saber sobre sua obra, declamando de cor seus textos. Confesso que chorei e senti saudades de você, a quem nunca conheci pessoalmente, mas que tenho aqui comigo como uma memória boa de se ter.

Também conheci o Joaquim Vicente, sujeito simpático e alegre, que muito me incentivou a escrever essa carta, coisa que você gostava demais, escrever cartas. Exercício que eu fiz pouco em minha vida, mas que vale muito enquanto interação com meus semelhantes. O Joaquim me contou que está preparando uma peça sobre suas cartas, que ele e a Nara apresentaram ontem pra gente. Que maravilha ver sua escrita falada por outros!

Nossa Caio, ontem teve uma mesa redonda em que três estudiosos do seu trabalho, o André, o Luiz Fernando e o Flávio apresentaram sobre sua obra. Eles são estudiosos mesmo, todos eles têm doutorado em Caio Fernando Abreu. Menino, você tem poder junto à academia! Você imaginava isso? Tantos trabalhos sobre sua obra? Se a minha pesquisa estiver correta, dos anos 2000 até hoje temos 419 trabalhos entre teses e dissertações sobre seus textos cadastrados na base de dados da CAPES. Pode não parecer, mas a maioria das pessoas que faz trabalho sobre sua obra, embora falem em distanciamento científico ou coisas do tipo, amam você. Quase ninguém te conheceu pessoalmente, é o mais provável. No entanto vivem e convivem com você durante bastante tempo. Produzem seus textos, recortam, colam, parafraseiam, analisam, criticam, invejam, desdenham. Seus livros estão à disposição e nem precisa muito esforço, eles são facilmente legíveis.

Carta escrita pelo Prof. Dr. Fábio Figueiredo Camargo e "endereçada" a Caio Fernando Abreu, lida no último dia de colóquio.

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